Guia do Comprador

Quais certidões do vendedor realmente importam na compra de um imóvel?

Veja quais certidões do vendedor realmente ajudam a identificar riscos antes de comprar um imóvel e por que uma certidão positiva não impede automaticamente o negócio.

Caio Rauber
Caio Rauber·
Comprador analisando certidões do vendedor antes de fechar a compra de um imóvel
Nem toda certidão positiva é motivo para desistir da compra — o que importa é entender o que ela revela

Receber uma lista extensa de certidões do vendedor costuma passar a impressão de que quanto mais documentos, mais segura fica a compra. Na prática, o que protege o comprador não é a quantidade de certidões, mas entender qual risco cada uma consegue revelar e se o resultado encontrado realmente muda a decisão.

Resposta rápida: as certidões pessoais do vendedor não formam uma lista universal obrigatória para que a compra de um imóvel seja válida. Na prática, as mais úteis são as que ajudam a identificar passivos fiscais, ações, execuções e riscos patrimoniais: CND Federal e consultas à Justiça Estadual, à Justiça Federal e, conforme o perfil do vendedor, à Justiça do Trabalho. Uma certidão positiva não impede automaticamente o negócio.

Essa distinção evita tanto a burocracia desnecessária quanto o erro oposto, de ignorar sinais relevantes sobre a situação patrimonial de quem está vendendo.

Certidões do vendedor são obrigatórias para comprar um imóvel?

Em regra, nos negócios imobiliários abrangidos pelo art. 54 da Lei nº 13.097/2015, não existe um pacote de certidões forenses do vendedor que precise ser apresentado para validar a operação ou, por si só, caracterizar a boa-fé do adquirente. O dispositivo estabelece que, para esses fins, não são exigidas certidões além das previstas na Lei nº 7.433/1985, nem certidões forenses ou de distribuidores judiciais — sempre observadas as ressalvas e hipóteses previstas na própria lei.

Isso não significa que pesquisar o vendedor tenha deixado de fazer sentido. A legislação reforçou a concentração das informações relevantes na matrícula: o Registro de Imóveis é o ponto central de publicidade das restrições e situações capazes de atingir aquele bem.

Mas há diferença entre o documento exigido para formalizar o negócio e o documento que o comprador consulta para entender o risco da operação. É nessa segunda categoria que entram as certidões pessoais. O foco, portanto, deve ser identificar quais riscos do vendedor realmente precisam ser investigados naquela operação.

Quais certidões merecem mais atenção na prática

Não existe uma hierarquia absoluta aplicável a qualquer vendedor, mas algumas consultas tendem a produzir informações mais úteis para uma compra imobiliária.

ConsultaO que pode revelarRelevância mais comum
CND Federal / PGFNsituação fiscal federal e Dívida Ativa da UniãoFrequentemente relevante
Justiça Estadual cívelações, cobranças e execuções patrimoniaisFrequentemente relevante
Justiça Federalprocessos e execuções na esfera federalFrequentemente relevante
CNDT / ações trabalhistaspassivo trabalhistaDepende do perfil
Certidões fiscais estadual e municipaldébitos tributários locaisDepende do contexto
Protestossinais de inadimplência ou dificuldade financeiraComplementar

A Certidão de Regularidade Fiscal perante a Fazenda Nacional é emitida conjuntamente pela Receita Federal e pela PGFN, com base na Portaria Conjunta RFB/PGFN nº 1.751/2014. Ela informa a situação do contribuinte quanto aos tributos federais e à Dívida Ativa da União e pode ser negativa, positiva com efeitos de negativa — hipótese em que existem débitos com exigibilidade suspensa ou garantidos — ou positiva. Não confunda essa certidão com a da Justiça Federal: uma verifica regularidade fiscal, a outra pesquisa processos judiciais.

A certidão cível estadual também pode revelar ações e execuções relevantes para avaliar a situação patrimonial do vendedor. Em Santa Catarina, as certidões de primeiro grau do TJSC emitidas pelo sistema eproc têm abrangência estadual e são extraídas de base centralizada, que reúne todas as varas, comarcas e turmas recursais.

Na área trabalhista, outra distinção é importante. A CNDT informa a situação do pesquisado em relação aos débitos registrados no Banco Nacional de Devedores Trabalhistas. É eletrônica, gratuita, tem abrangência nacional e validade de 180 dias. Isso não significa que uma CNDT negativa comprove a inexistência de qualquer processo trabalhista em andamento. Não por acaso, o TRT da 12ª Região disponibiliza, em serviços distintos, a Certidão Eletrônica de Ações Trabalhistas (CEAT) e a CNDT. Consulta de débito trabalhista e pesquisa de ações trabalhistas não são a mesma coisa.

A relevância dessa frente aumenta quando o vendedor:

  • é empresário;
  • possui empresa;
  • possui empregados;
  • apresenta exposição patrimonial ligada à atividade empresarial.

Já a certidão de protestos costuma funcionar melhor como indicador de atenção. Encontrar protestos pode justificar uma investigação maior sobre a situação financeira do vendedor, mas não significa que o imóvel não possa ser vendido. Da mesma forma, uma certidão criminal genérica normalmente não possui a mesma prioridade patrimonial de uma consulta cível, fiscal ou executiva em uma compra residencial comum. Situações específicas podem exigir análise diferente, mas não há razão para colocá-la automaticamente no topo de qualquer checklist.

Certidão positiva significa que você deve desistir da compra?

Não. Uma certidão positiva significa, antes de tudo, que existe algo para analisar. O primeiro passo é descobrir o que apareceu, em vez de tratar qualquer ocorrência da mesma forma. A análise pode considerar:

  • natureza da ação;
  • valor envolvido;
  • estágio do processo;
  • existência de execução;
  • eventual penhora ou outra constrição;
  • relação do processo com o imóvel;
  • existência de outros bens do vendedor;
  • possibilidade de regularização antes da conclusão da compra.

Uma cobrança pequena e sem impacto relevante sobre o patrimônio do vendedor não representa o mesmo risco de uma execução capaz de comprometer grande parte dos seus bens. Por isso: uma certidão positiva não encerra a análise; ela mostra onde a análise precisa aprofundar.

Dependendo do que for encontrado, pode ser necessário condicionar a continuidade da negociação a uma regularização, retenção de determinado valor, quitação prévia ou outra solução devidamente estruturada no contrato de compra e venda.

Se a certidão do vendedor trouxe alguma dúvida específica sobre o seu caso, Caio Rauber pode ajudar a organizar essa análise antes da compra. Fale pelo WhatsApp.

Nos casos de maior complexidade — especialmente quando houver execução, insolvência aparente ou dúvida sobre eventual fraude contra credores ou à execução —, a análise jurídica específica passa a ser mais importante do que simplesmente acumular novas certidões.

A lista muda conforme quem está vendendo

Sim. Uma pessoa física sem atividade empresarial relevante não apresenta o mesmo conjunto de riscos de um empresário, sócio de empresas ou pessoa jurídica.

Quando o vendedor possui exposição empresarial, podem ganhar importância consultas sobre:

  • recuperação judicial ou falência;
  • passivos trabalhistas;
  • regularidade perante o FGTS;
  • processos envolvendo empresas das quais participa;
  • poderes de quem representa a pessoa jurídica.

O próprio TJSC disponibiliza certidão específica de recuperação judicial, recuperação extrajudicial e falência.

A abrangência geográfica também merece atenção. Se o vendedor viveu ou manteve negócios e patrimônio relevante em outros Estados, pesquisar apenas Santa Catarina pode produzir uma imagem incompleta. Isso não significa consultar todos os tribunais do país: a diligência deve acompanhar os elementos concretos da operação. Esse é um dos motivos pelos quais checklists rígidos costumam ser pouco eficientes. A melhor seleção de certidões depende do risco que precisa ser investigado.

Não confunda certidões do vendedor com documentos do imóvel

Uma das confusões mais frequentes é colocar tudo no mesmo checklist. As certidões pessoais tentam responder perguntas sobre quem está vendendo:

  • possui passivos relevantes?
  • enfrenta execuções?
  • há sinais de insolvência?
  • existem riscos que merecem aprofundamento?

A documentação do imóvel responde outras perguntas:

  • quem aparece como proprietário?
  • existem ônus ou restrições na matrícula?
  • há penhora ou indisponibilidade registrada?
  • existem pendências relacionadas ao próprio imóvel?
  • a situação documental corresponde ao que está sendo vendido?

São análises complementares. Uma matrícula sem restrições aparentes tem enorme importância, mas não torna inútil a investigação sobre o vendedor — assim como acumular certidões pessoais não substitui a análise da matrícula e da documentação do imóvel.

O critério mais eficiente é evitar os dois extremos: nem exigir dezenas de certidões por hábito, nem dispensar toda análise do vendedor apenas porque a matrícula parece regular. Antes de pagar sinal ou reserva, a diligência deve ser proporcional ao valor da operação, ao perfil do vendedor e aos indícios encontrados.

Conclusão

O melhor checklist não é necessariamente o maior. É aquele que permite responder, com evidência suficiente: há algum risco identificado no vendedor que precisa ser resolvido antes de concluir esta compra? A diligência deve ser proporcional ao valor da operação, ao perfil do vendedor e aos indícios encontrados — nem exigir dezenas de certidões por hábito, nem dispensar toda análise apenas porque a matrícula parece regular.

Perguntas frequentes

É obrigatório tirar certidões negativas do vendedor?

Não existe uma exigência universal de certidões forenses do vendedor para a validade dos negócios imobiliários abrangidos pelo art. 54 da Lei nº 13.097/2015 ou para caracterizar a boa-fé do adquirente. Elas podem, porém, ser utilizadas como diligência adicional conforme o risco da operação.

Uma certidão positiva impede a venda do imóvel?

Não necessariamente. É preciso analisar o processo ou débito encontrado, sua natureza, valor, estágio e eventual impacto sobre o patrimônio ou sobre o próprio imóvel.

CNDT negativa significa que o vendedor não possui processos trabalhistas?

Não. A CNDT informa a situação relativa aos débitos registrados no Banco Nacional de Devedores Trabalhistas. A existência de ações trabalhistas é uma pesquisa diferente, feita perante o Tribunal Regional do Trabalho.

Matrícula sem penhora significa que posso dispensar toda a análise do vendedor?

A matrícula é central para verificar a situação registral do imóvel, mas diligências adicionais sobre o vendedor ainda podem ser úteis quando o perfil da operação apresentar riscos que mereçam investigação.

Está analisando uma oportunidade imobiliária em Florianópolis? A Caio Rauber Curadoria organiza informações e critérios de análise para apoiar uma decisão mais fundamentada e, quando necessário, conecta você a parceiros habilitados responsáveis pela operação.

Falar com Caio Rauber no WhatsApp